Conhece Formato Mínimo do Skank?
Começou de súbito:
A festa estava mesmo ótima.
Ela procurava um príncipe,
Ele procurava a próxima.Ele reparou nos óculos,
Ela reparou nas vírgulas.
Ele ofereceu-lhe um ácido
E ela achou aquilo o máximo.Os lábios se tocaram ásperos
Em beijos de tirar o fôlego.
Tímidos, transaram trôpegos
E, ávidos, gozaram rápido.Ele procurava álibis,
Ela flutuava lépida.
Ele sucumbia ao pânico
E ela descansava lívida.O medo redigiu-se ínfimo
E ele percebeu a dádiva;
Declarou-se dela o súdito.
Desenhou-se a história trágica:Ele enfim dormiu apático
Na noite segredosa e cálida.
Ela despertou-se tímida,
Feita do desejo a vítima.Fugiu dali tão rápido,
Caminhando passos tétricos;
Amor em sua mente, épico,
Transformado em jogo cínico.Para ele, uma transa típica,
O amor em seu formato mínimo;
O corpo se expressando clínico,
Da triste solidão a rubrica.
Por que essa música é tão interessante?
Para começar “Formato Mínimo”, da banda mineira Skank, composta por Samuel Rosa e Rodrigo Leão. Ela foi lançada no álbum Cosmotron (2003).
A maior referência dessa música é a canção “Construção”, de Chico Buarque (1971). Assim como Chico fez em seu clássico, o Skank construiu “Formato Mínimo” inteiramente com palavras proparoxítonas (aquelas em que a sílaba tônica é a antepenúltima, como súbito, óculos, clínico). Isso cria um ritmo mecânico, urgente e um pouco “seco”, que combina com o tema da música: a frieza das relações modernas.
A música narra o encontro de um casal em uma festa, mas sob perspectivas completamente opostas: Ela, romântica. Ele, Cínico.
Ela, “Procurava um príncipe” e via o amor como algo “épico”. Ela é detalhista (“reparou nas vírgulas”) e se entrega emocionalmente. No final, ela acorda sentindo-se uma “vítima” porque o que para ela era um sonho, para o outro foi apenas um momento.
Ele, “Procurava a próxima”. Ele é mais desapegado e focado no prazer imediato (“reparou nos óculos”, “ofereceu-lhe um ácido”). Para ele, foi apenas uma “transa típica”.
A menção ao ácido (LSD) sugere uma experiência de alteração de sentidos que intensifica o encontro (“beijos de tirar o fôlego”, “transaram trôpegos”), mas que também leva ao “pânico” e a uma percepção distorcida da realidade.
O título resume a crítica da música. O amor, que deveria ser algo grandioso e “épico”, é reduzido ao seu “formato mínimo”: o ato puramente físico, biológico (“o corpo se expressando clínico”) e, por fim, solitário.