Em Ezequiel 16, vemos um povo ingrato e um Deus didático. A narrativa não começa na transgressão, mas no cuidado repetido. Jerusalém recebe vida, proteção e crescimento. Tudo vem antes de qualquer cobrança. O pecado não nasce da falta, mas da repetição do dom até que a memória da origem se perca.
A ingratidão não nasce da recusa, nasce da repetição do excesso. Primeiro alguém recebe mais do que esperava e agradece. Na segunda vez, o gesto já não surpreende. Surge a expectativa. Na terceira, o que era dom começa a parecer padrão.
Com o tempo, aparece a sensação difusa de mérito. Não se sabe dizer qual, mas ela se impõe. A dependência continua, a reciprocidade não. Gratidão vira pano de fundo. Presença vira obrigação.
Quando o fluxo se interrompe, não há reflexão, há ressentimento. O ingrato não se vê como alguém que recebeu demais, mas como alguém a quem tiraram algo que já considerava seu. Em Ezequiel 16, é exatamente esse deslocamento que Deus expõe: o momento em que a graça vira dívida na cabeça de quem esqueceu de onde veio.