Ezequiel 15 é o capítulo mais curto do livro. O texto não narra uma história, não descreve uma visão e não lista pecados. Ele se organiza em torno de uma imagem simples e de uma pergunta objetiva. O que vale a madeira da videira quando não há fruto?
No mundo antigo, a resposta era conhecida. A videira não era valorizada pela madeira. Não servia para construir, sustentar ou fixar. Era torta, frágil, inadequada. Seu valor estava no fruto. Ao falar da madeira, o texto desloca o foco da identidade para a função. Não basta existir. O critério passa a ser finalidade.
A imagem se estreita quando aparece o fogo. O galho já foi queimado nas pontas. Não é recurso poético. É dado histórico. Jerusalém ainda está de pé, o templo funciona, a vida religiosa segue. Mas o povo já conhece derrotas, perdas e deportações. O juízo não começa aqui. Ele vem sendo absorvido, explicado e normalizado.
Há um detalhe teológico importante. Neste capítulo, o fogo não purifica. A madeira da videira não se refina depois de queimada. Ela perde até o pouco valor que ainda poderia reivindicar. O sofrimento não transforma. Ele apenas expõe. Não abre caminho para algo novo. Confirma o que já foi abandonado.
Quando a metáfora é aplicada à cidade, a acusação não é pontual. Não se trata de um erro específico. O texto fala de infidelidade à vocação. Jerusalém não é descrita como fraca, mas como improdutiva. Continua existindo, mas deixou de ser aquilo para o que foi chamada.
Ezequiel 15 não termina com ameaça nem com promessa. Ele estabelece um critério. Existência não substitui finalidade. Permanência não garante sentido. Quando o propósito se perde, o que sobra não é estabilidade. É exposição.