Lendo Hamlet, algo me ficou claro mesmo sem entrar em detalhes técnicos da trama. Ali o amor não salva ninguém. Ele existe, pesa, machuca, mas não reorganiza o mundo. A história não avança porque alguém ama melhor, e o desastre não é interrompido por um sentimento verdadeiro. O centro da peça é outro. Um ambiente corrompido, decisões adiadas, poder mal resolvido.
A relação de Hamlet com Ofélia deixa isso ainda mais evidente. Ele a afasta, a confunde, fala de modo ambíguo, por vezes cruel. Não há ali um cuidado que proteja, nem um vínculo capaz de sustentar alguém frágil em meio ao caos da corte. Quando Hamlet mata Polônio, pai de Ofélia, não há uma pausa, não há recolhimento, não há um peso visível que reorganize suas escolhas. A dor dela não o converte. A loucura de Ofélia surge quase como efeito colateral de um mundo que já estava quebrado antes. E o suicídio dela, por mais devastador que seja, não freia a tragédia nem produz redenção alguma.
Isso me fez perceber que, em Hamlet, o amor aparece mais como algo exposto ao colapso do que como força capaz de resistir a ele. Hamlet até declara amor, mas suas palavras soam estranhas, exageradas, quase performáticas. Não parecem fundar um compromisso. Parecem mais um gesto tardio, pronunciado quando já não há nada a salvar. O sentimento não organiza a ação. Ele entra em cena quando o destino já está praticamente selado.
Pensando nisso, acabei relendo mentalmente Romeu e Julieta. Ali o amor é intenso, mas sobretudo breve. Curtíssimo. Ele nasce, cresce e morre em poucos dias. Tudo acontece rápido demais. Emoções fortes, decisões irreversíveis, fim precoce. É bonito, sim. Mas é passageiro. Não sustenta uma vida longa. É chama alta, não brasa contínua.
E aí fico em aberto. Concordo eu com Shakespeare? Acho que não. Mas ele parece eterno. Não eu. Tampouco é o amor, que só é eterno enquanto dura.