Vi um vídeo curto. Uma mulher comenta algo que aprendeu ao ler Gênesis 2:18. Deus descreve a mulher como “ajudadora”. Ela confessa que, numa primeira leitura, a palavra soou menor. Secundária. Como se indicasse um papel auxiliar, quase periférico.
O vídeo avança quando ela decide não ficar na tradução. Vai ao hebraico. Descobre que o termo usado ali é ʿēzer. Não é um termo neutro. No Antigo Testamento, ʿēzer aparece repetidamente para descrever o próprio Deus em relação a Israel. Socorro em situação de fragilidade. Auxílio decisivo. Presença sem a qual o povo não se sustenta. Exegeticamente, isso muda tudo. Deus nunca ocupa um lugar secundário nessa relação. Logo, a palavra não pode carregar, em si, a ideia de inferioridade.
O vídeo não faz inferência teológica ousada. Ele apenas respeita o uso consistente do termo no texto bíblico. A conclusão decorre do próprio vocabulário. Se ʿēzer não é menor quando se refere a Deus, não pode ser menor quando se refere à mulher.
Isso me levou a olhar novamente para os relatos da criação. Em Gênesis 1, Deus cria a humanidade como um todo. Homem e mulher surgem juntos, igualmente portadores da imagem divina. Em Gênesis 2, o texto não propõe uma nova criação, mas um aprofundamento narrativo. O foco não é ordem cronológica, mas relação. O homem é formado, situado no mundo, e o diagnóstico é explícito. Não é bom que esteja só.
Dentro de um contexto patriarcal, o que o texto claramente é, a narrativa preserva algo notável. A mulher não aparece como adendo funcional, mas como resposta estrutural ao limite humano. Não como assistente. Como ʿēzer. Sustentação indispensável desde o início.