Ezequiel 26. Juízo de Tiro. Potência fenícia, marítima e comercial, ela surge como símbolo de um sistema que prospera com a queda alheia. O oráculo vem logo após a destruição de Jerusalém e deixa claro que o critério do juízo não mudou. Apenas ampliou o alcance. O problema não é quem cultua a Deus certo ou errado, mas o que se faz diante da ruína do outro.
Historicamente, Tiro controlava rotas e mercadorias-chave do Mediterrâneo. Jerusalém funcionava como corredor terrestre estratégico. Sua queda, em 586 a.C., foi celebrada por Tiro como vantagem econômica. O cerco babilônico atingiu a cidade continental; séculos depois, Alexandre, o Grande completou a derrota ao alcançar a ilha. O juízo acontece em etapas, não em um único golpe.
Literariamente, o texto avança como maré. “Muitas nações” vêm em ondas sucessivas. A linguagem mistura cerco, desgaste e esvaziamento. O clímax não é explosão, é exposição. A cidade do comércio vira rocha nua. O centro de trocas vira lugar de redes secando. O ritmo do poema comunica inevitabilidade.
Exegeticamente, o pecado é claro: alegria diante da profanação do santuário e da queda de Jerusalém como “porta dos povos”. Não é condenação da riqueza, mas da soberba que transforma lucro em critério moral. A frase “não tornarás a ser edificada” aponta para perda definitiva de status e função histórica, não para desaparecimento físico absoluto.
No plano pessoal, o texto pressiona onde incomoda. Onde eu ganho quando alguém perde? Quando chamei vantagem de justiça? Tiro cai quando sucesso vira autorização ética. Sistemas assim funcionam por um tempo. Pessoas também. Até o dia em que o mar volta. E ele sempre volta.