Ezequiel 25 marca uma virada clara no livro. Depois de confrontar Judá de forma direta e insistente, o texto desloca o foco para fora. Não é mudança de assunto, é ampliação do juízo.
As nações vizinhas acompanham a destruição de Jerusalém à distância. Não participam diretamente do cerco, mas reagem a ele. E é justamente essa reação que entra em julgamento. Cada povo falha de um modo distinto, revelando não apenas interesses políticos, mas posicionamentos morais e teológicos.
Amom demonstra alegria diante da profanação do templo, não apenas da derrota militar de Judá. A falha está em considerar desejável o colapso do culto e da presença simbólica de Deus. A consequência anunciada é a perda de soberania e identidade, sendo entregue a povos do Oriente e reduzido a território de passagem.
Moabe interpreta a queda de Judá como evidência de que não havia nada de singular naquele povo. Ao dizer que Judá é “como todas as nações”, nega a lógica da aliança e reduz a história a um jogo comum de poder. O juízo se manifesta na perda territorial e no apagamento de relevância política.
Edom age movido por vingança persistente. O texto indica continuidade, não reação pontual. O ressentimento é cultivado como tradição e identidade nacional. A consequência é a devastação total, sem perspectiva de restauração.
Filístia é condenada pelo ódio histórico e pela violência reiterada contra Judá. Não há sinal de inflexão ao longo do tempo. Após esse período, os filisteus deixam de existir como povo reconhecível no cenário bíblico.
Exegeticamente, o capítulo revela que o juízo não responde apenas a ações, mas a posturas internas. Celebrar a dor do outro, relativizar a profanação, transformar a queda em confirmação ideológica.
E aqui o texto nos alcança. Nem sempre estamos errados pelo que fazemos, mas pelo que aprovamos. Às vezes, não participamos da destruição. Apenas observamos. Comentamos. Sentimos alívio quando não foi conosco. Ezequiel 25 desmonta essa falsa inocência. Há quedas que não provocamos, mas validamos. E a pergunta final permanece incômoda: o que aconteceu dentro de mim quando aconteceu fora?