Ainda em “Sonho de uma noite de verão” conheço outro belo casal. Hérmia e Lisandro
LISANDRO: Amada, desfaleces de tanto andar no bosque; e, para dizer a verdade, eu perdi o caminho. Pousemos, Hérmia, se achares bom, e espera que o dia reconorte o mundo com sua luz.
HÉRMIA: Seja assim, Lisandro. Encontra para ti um leito; eu repousarei sobre este banco de relva.
LISANDRO: Um só banco de relva servirá para nós dois; um só coração, uma só cama, duas fidelidades e um só seio.
HÉRMIA: Não, bom Lisandro. Por amor de mim, meu caro, deita-te mais longe; não fiques assim tão perto.
LISANDRO: Oh! Nota, querida, o sentido da minha inocência! No amor, a compreensão lê o sentido do amor. Quero dizer que o meu coração está de tal modo unido ao teu que ambos formam um só; dois peitos ligados por um juramento, e, portanto, um só seio e uma só lealdade. Assim, permitas que me deite ao teu lado; pois, deitando-me assim, Hérmia, não te falto ao respeito.
HÉRMIA: Lisandro fala com sutileza. Minha cortesia teria sido muito grosseira se eu tivesse duvidado da tua lealdade. Mas, por amor e por delicadeza, meu caro amigo, fica um pouco mais distante; afasta-te, de acordo com o que a decência humana ordena que deve ser a distância entre um rapaz virtuoso e uma donzela. Afasta-te, pois, e boa noite, meu doce amigo; que o teu amor nunca mude até que a tua vida se acabe!
LISANDRO: Amém, amém a essa bela oração, digo eu; e que a minha vida termine quando terminar a minha lealdade! Aqui será o meu leito; que o sono te dê todo o seu repouso!
HÉRMIA: E que tu tenhas a metade, por desejo de quem te quer bem! (Eles adormecem em locais separados).
Eis aqui um primeiro diálogo.
Lisandro fala em “um só coração, uma só cama”, mas note o truque: ele tenta transformar proximidade física em abstração moral. É sofisma amoroso de alto nível. Hérmia percebe. Ela não o acusa, não o humilha, não dramatiza. Apenas reafirma a distância necessária para preservar o amor. É maturidade emocional em estado puro. Amor que precisa se provar pela transgressão ainda não é amor, é ansiedade com poesia.