O commit gerou alarde. Bastou Linus Torvalds mencionar, de forma explícita, que havia usado IA para que surgissem leituras apressadas, manchetes infladas e conclusões dramáticas. Como se um comentário de commit fosse um manifesto. Como se ali estivesse um ponto de virada civilizacional. Não estava.
O fato, no entanto, é simples e bem mais interessante: Torvalds já usa IA. E usa com responsabilidade. Sem pedir licença. Sem pedir desculpas. O comentário é leve, até otimista. Ele aplicou IA em algo que não domina profundamente, uma ferramenta de visualização em um projeto pequeno, quase lúdico. Deu autonomia à ferramenta, validou o resultado e seguiu em frente. Ferramenta no lugar certo, humano no controle final.
Isso não contradiz nada do que ele sempre disse. Quando afirma que a IA é mais marketing do que realidade, o alvo não é a utilidade prática, mas o discurso messiânico. Ele nunca foi contra ferramentas. Sempre foi contra ilusões. IA ajuda a explorar, aprender, ajustar, acelerar. Ótimo. O que ela não faz é assumir responsabilidade. E responsabilidade, em software que importa, não se terceiriza.
Também por isso faz sentido sua rejeição a rotular código como “feito por IA”. Código não é confissão moral. Não importa de onde veio. Importa se é correto, legível e sustentável. Um patch ruim continua ruim, venha de quem vier. Um patch bom se sustenta sozinho. O resto é ruído para debate de rede social.
O ponto mais revelador talvez seja este: o uso foi justamente onde ele não é especialista. IA como extensão de alcance, não como muleta intelectual. Isso é uso maduro. É entender limites próprios sem abrir mão do juízo final. É exatamente assim que ferramentas poderosas deveriam entrar no fluxo de trabalho.
No fim, o alarde diz mais sobre quem observa do que sobre quem programou. IA não ameaça a boa engenharia. O que ameaça é confundir ferramenta com consciência. Usada com critério, ela amplia. Usada como atalho mental, empobrece. E o commit deixa claro de que lado Torvalds está.