No célebre monólogo de Hamlet, uma frase se destaca: “A consciência nos torna covardes”.
Concordo. Porque sei o quanto custa saber demais.
Quanto mais consciência, menos salto.
Não no sentido moral. No sentido humano. Quanto mais entendemos o mundo, seus riscos e armadilhas, mais cautelosos ficamos. A coragem perde espontaneidade. O impulso passa a exigir justificativa.
A criança pula na piscina. O adulto testa a água. Não porque o adulto seja pior, mas porque ele sabe. Já escorregou, já se machucou, já pagou a conta. A consciência amplia o mapa do risco. E mapas grandes intimidam.
A consciência faz o velho sair com guarda-chuva. Só velho faz isso. Ter papel higiênico no porta-luvas do carro. Remédio “para o caso de”. Essas coisas. Tudo perfeitamente razoável. Tudo perfeitamente paralisante, se levado longe demais.
Planejar demais vira um jeito elegante de adiar. O Excel, o plano B, o “vai que”. Tudo faz sentido. Até o dia em que percebemos que a vida está inteira protegida e pouco vivida.
A lucidez cobra pedágio. Quem vê longe demais começa a andar devagar. Quem enxerga todas as consequências perde o direito à leveza. A ignorância, nesse sentido, é mesmo uma bênção. Não porque seja boa, mas porque permite agir.
Hamlet não defende a inconsciência. Ele denuncia a paralisia. Viver exige aceitar não saber tudo. Quem espera segurança absoluta não age. Quem exige garantia total nunca salta.
Às vezes, não é falta de coragem. É excesso de consciência.