Monólogo “Ser ou não ser”, de Hamlet (Ato III, Cena I).
“Ser ou não ser: eis a questão.”
A pergunta não é apenas sobre existir ou morrer. É agir ou não agir. Enfrentar o mundo ou suportá-lo. O dilema é ético antes de ser biológico.
“Será mais nobre para o espírito sofrer / As pedradas e flechadas da fortuna cruel, / Ou pegar em armas contra um mar de dores / E, lutando, dar-lhes fim?”
Duas posturas diante da injustiça: suportar passivamente ou reagir ativamente. O “mar de dores” já sugere algo grande demais para um único indivíduo. A luta nasce desproporcional.
“Morrer, dormir — nada mais; / E, num sono, pôr fim à dor do coração / E aos mil choques naturais / De que a carne é herdeira.”
A morte aparece como anestesia. Não há romantização, apenas a ideia de cessar o sofrimento. É a fala de alguém exausto, não de alguém teatral.
“Morrer, dormir; / Dormir, talvez sonhar — aí está o obstáculo.”
Aqui tudo muda. O problema não é a morte. É o depois. A possibilidade do sonho interrompe a solução simples.
“Pois, nesse sono da morte, que sonhos virão, / Quando tivermos abandonado este invólucro mortal, / Isso nos faz hesitar.”
A razão esbarra no desconhecido. A incerteza paralisa mais do que a dor conhecida.
“É essa reflexão que faz da desgraça uma vida tão longa.”
Não é o sofrimento em si que pesa, mas a consciência dele. Pensar estica o tempo da dor.
“Quem suportaria os açoites e desprezos do tempo, / A injustiça do opressor, a afronta do orgulhoso, / A dor do amor desprezado, a demora da lei, / A insolência do poder e os insultos / Que o mérito paciente recebe dos indignos…”
Hamlet enumera violências cotidianas, sociais e morais. Não são tragédias épicas, mas humilhações diárias. Filosofia encarnada no mundo real.
“…quando ele mesmo poderia dar fim a tudo / Com um simples punhal?”
A saída não é difícil. O custo existencial é que impede.
“Quem carregaria fardos, gemendo e suando / Sob o peso de uma vida cansada, / Não fosse o medo de algo após a morte?”
A vida é descrita como peso. O que a sustenta não é entusiasmo, é o receio do desconhecido.
“Essa terra não descoberta, de cujos limites / Nenhum viajante retorna, confunde a vontade.”
Sem dados, sem mapa, a decisão trava. A razão precisa de previsibilidade para agir.
“E nos faz preferir suportar os males que temos / A fugir para outros que não conhecemos.”
O sofrimento conhecido parece mais seguro do que o risco absoluto. Uma observação psicológica precisa e atemporal.
“Assim, a consciência faz de todos nós covardes.”
Consciência aqui é reflexão excessiva. Pensar demais corrói a coragem. Não por fraqueza, mas por lucidez.
“E assim a cor natural da resolução / Se enfraquece com o pálido tom do pensamento.”
A decisão nasce viva, mas a análise a desbota. O pensamento drena a ação.
“E empreendimentos de grande alcance e importância, / Por essa razão, desviam seu curso / E perdem o nome de ação.”
Hamlet descreve a própria paralisia. Grandes decisões morrem antes de virar gesto.
“Silêncio agora. A bela Ofélia! / Ninfa, em tuas orações, / Lembra-te de todos os meus pecados.”
A filosofia é interrompida pela vida concreta. Hamlet sai do universal e retorna ao particular, carregando culpa e ambiguidade.
Este monólogo não exalta a morte. Ele expõe o custo da consciência. Hamlet não é fraco. Ele vê demais. E ver demais torna qualquer passo pesado.