Ezequiel 19 é um lamento. Não um aviso, não uma tentativa de correção. O texto parte do fim. Algo ainda existe, mas já perdeu sua razão de existir. O profeta não chama a liderança de Judá ao arrependimento; ele canta o funeral de um poder que se manteve de pé depois de ter perdido o coração.
Judá vive seus últimos anos de autonomia. Reis se sucedem rapidamente, sempre sob tutela estrangeira. Jeoacaz é levado ao Egito. Jeoaquim e depois Joaquim terminam sob a Babilônia. O trono permanece, o cetro ainda aparece, mas já não sustenta nada. O exílio não começa quando o povo é levado. Começa quando o poder passa a existir para se preservar.
As imagens do capítulo são reveladoras. A leoa gera filhotes fortes. A videira produz ramos próprios para o cetro. Nada falta em vigor, capacidade ou legitimidade inicial. A ruptura acontece quando essa força muda de eixo. O leão aprende a devorar. A videira deixa de sustentar e vira combustível. O texto não condena a autoridade. Condena o momento em que ela deixa de servir à vida.
Aqui entra o critério silencioso do ágape. Autoridade legítima nasce do cuidado. Liderança verdadeira protege o que não lhe pertence. Quando o poder se organiza em torno do amor que preserva o outro, ele se mantém humano. Quando se organiza em torno do medo de perder espaço, ele se torna predador. O fogo que consome não vem de fora. Sai do próprio galho.
Ezequiel 19 mostra que a perda decisiva não é a do poder, é a do amor que o justificava. Quando a autoridade deixa de ser expressão de ágape e passa a ser mecanismo de autopreservação, ela pode até continuar funcionando. Mas já morreu. O lamento final não é exagero. É apenas a constatação de que, sem ágape, todo poder que permanece é só atraso entre o colapso e o enterro.