Ezequiel 18 se constrói como resposta a uma explicação que parecia convincente demais. No exílio, o povo buscava sentido para a própria ruína e recorria a uma narrativa pronta, quase elegante, que deslocava a causa do sofrimento para o passado. O capítulo começa ali, não negando a dor, mas questionando a forma como ela estava sendo explicada.
Havia um provérbio em circulação: “os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram”. A frase soa sábia, quase poética. Mas sua função é clara: suspender a responsabilidade. O texto nasce nesse ponto de tensão. Não discute se o sofrimento é real. Questiona a explicação que transforma a dor em álibi moral. Em Ezequiel 18, Deus não corrige o diagnóstico histórico primeiro; corrige a narrativa que o povo conta a si mesmo.
O núcleo do capítulo não é uma lista de boas e más condutas, mas a redefinição da justiça. Justiça não é herança, nem saldo acumulado. É relação viva. O justo vive enquanto anda na justiça. O ímpio vive se muda de direção. O passado explica, mas não governa. A justiça divina não é arqueológica; ela é atual.
Quando o texto se desloca para o humano, ele se torna desconfortável. Perdemos duas proteções ao mesmo tempo. A primeira é a culpa herdada, que absolve o presente. A segunda é o currículo moral, que promete imunidade futura. Não há história que condene definitivamente, nem trajetória que garanta segurança. O presente passa a ser o lugar decisivo.
O capítulo se encerra sem dureza vingativa. Deus não tem prazer na morte do ímpio. O juízo não fecha a conversa; ele a leva a sério. A vida permanece aberta enquanto houver disposição de mudar de direção. Em Ezequiel 18, Deus retira todas as muletas explicativas e deixa apenas uma coisa nas mãos do ser humano: o hoje. E isso, paradoxalmente, é graça.