Ezequiel 14 começa com uma cena tranquila demais para o que ela carrega. Anciãos se assentam diante do profeta. O gesto é correto. A forma é religiosa. Mas o diagnóstico vem antes da palavra: os ídolos já estão no coração. A decisão já foi tomada. A consulta não busca direção, busca verniz. Quando o coração escolhe antes, a espiritualidade vira apenas encenação organizada.
O capítulo não acusa erro ocasional, acusa lealdade deslocada. Ídolo aqui não é imagem, é critério. Aquilo que governa escolhas, define prioridades e estabelece limites. Por isso Deus não responde como oráculo neutro. A resposta expõe. Revela. Deixa claro que não existe diálogo honesto quando a vontade já foi capturada.
O texto avança e fecha qualquer rota de fuga. Mesmo que Noé, Daniel e Jó estivessem ali, nada mudaria. Não porque lhes faltasse fé, mas porque justiça não é transmissível. Eles livrariam apenas a si mesmos. O argumento não é religioso, é moral. Virtude não compensa estrutura corrompida. Excelência individual não neutraliza uma coletividade que normalizou o desvio.
Aqui Ezequiel desmonta uma esperança muito comum: a de que a presença de gente boa sustenta sistemas ruins. Não sustenta. Santidade não se propaga por proximidade. Responsabilidade não se terceiriza. Cada um responde pelo que decidiu proteger no próprio coração. Quando essa decisão vira padrão coletivo, o colapso deixa de ser ameaça e passa a ser consequência.
O chamado final não é ao medo, é à lucidez. “Voltai-vos” não é emoção, é direção. Porque o juízo que Ezequiel descreve não cai do céu sem aviso. Ele apenas chega quando o adiamento virou método e a encenação virou hábito. Deus não força a mudança. Mas também não negocia com o teatro.