Ilusões bem-intencionadas quase sempre nascem de um impulso compreensível: proteger do sofrimento. A dor é grande demais, o medo é real demais, então alguém oferece uma palavra que acalma. O gesto parece cuidado. O problema é que consolo sem verdade não cura, apenas adia. E todo adiamento cobra juros.
Esse tipo de ilusão costuma se apresentar como responsabilidade. “Não é hora de alarmar.” “Depois a gente trata disso.” “Vamos manter a esperança.” Soa maduro, soa sensato. Mas, no fundo, é uma tentativa de manter tudo funcionando sem mexer no que sustenta. A estrutura está comprometida, mas o acabamento compra tempo. Até a realidade bater. Ela sempre bate.
Há algo ainda mais sutil. Ilusões bem-intencionadas preservam identidades. Permitem continuar sendo o mesmo líder, a mesma comunidade, a mesma narrativa, sem admitir que algo quebrou. Por isso seduzem tanto. A verdade exige perda. A ilusão promete continuidade. Só que continuidade falsa não constrói futuro, apenas prolonga o colapso.
A verdade pode ferir no início, mas devolve chão. A ilusão conforta rápido, mas rouba o amanhã. E, no fim, não é crueldade desmontar o engano. É misericórdia. Porque só quando a ilusão cai é que algo real pode ser reconstruído.