Ezequiel 13 é um capítulo sobre ilusões bem-intencionadas. Ele não descreve gente sem fé, mas líderes religiosos ativos, eloquentes e confiantes. O problema é que anunciam paz quando o colapso já está em curso. O texto desmonta a ideia de que palavras bonitas sustentam realidades frágeis. Sustentam não. Apenas atrasam a queda.
O contexto é o exílio babilônico, antes da destruição final de Jerusalém. A cidade ainda existe. O templo ainda funciona. O culto segue. Isso cria a sensação de que “não é tão grave assim”. Profetas reforçam essa narrativa. Ezequiel fala a um povo preso entre fatos duros e promessas fáceis. E é justamente aí que a mentira prospera.
Literariamente, o coração do capítulo é a metáfora do muro rebocado. Há um muro mal construído. Em vez de refazer a estrutura, alguém passa um acabamento bonito. A rachadura some. A insegurança também. Até a chuva chegar. A tempestade não é surpresa. É critério. Ela revela se havia fundamento ou só aparência.
Teologicamente, o texto é severo. A falsa profecia não é neutra. Ela entristece o justo e fortalece o ímpio. Inverte a moral. Dá segurança a quem deveria mudar e culpa quem ainda tenta permanecer íntegro. Deus se opõe a esse tipo de espiritualidade porque ela usa Seu nome para evitar arrependimento.
A lição é desconfortável. Às vezes, o que chamamos de fé é apenas reboco. Linguagem correta, símbolos certos, mas nenhuma disposição de enfrentar a verdade. Deus derruba o muro não por crueldade, mas porque ainda quer salvar quem vive atrás dele. A pergunta que fica é simples e perigosa: onde estamos chamando acabamento de fundamento?