O Navio de Teseu era famoso. Anos de uso. Manutenção constante. Peças mais velhas eram trocadas. Uma por uma. Sem alarde. O navio seguia navegando. O processo era tão gradual que ninguém percebia a mudança. Décadas depois, nenhuma parte original restava. Ainda era o mesmo navio? Nada do que estava ali no início continuava ali no fim. Só o nome. E a história contada.
Responder “sim” exige aceitar que identidade não mora na matéria. Ela se sustenta na continuidade. Enquanto o navio navega, cumpre sua função e é reconhecido como o mesmo, a troca das partes não o descaracteriza. A mudança acontece sem ruptura. Essa resposta é confortável. Permite mudar tudo sem admitir perda. Permite seguir adiante sem luto.
Responder “não” tem outro custo. Aqui, identidade depende da composição. Trocar as peças é perder o objeto. O nome permanece, mas passa a designar um sucessor. A história confunde. A aparência engana. Essa resposta é dura. Obriga a reconhecer que algo morreu no caminho. Que continuidade pode ser só insistência bem contada.
A questão, porém, não se encerra aí. As peças antigas não foram descartadas. Alguém as guardou. Com elas, construiu um segundo navio, feito apenas do material original. Agora existem dois candidatos legítimos. Um preserva a continuidade. O outro, a origem. A pergunta deixa de ser técnica. Vira um espelho. Porque, ao escolher um critério, você revela o que aceita perder para continuar. Esse é o Paradoxo de Teseu. E ele não termina com o navio. Termina em você: qual é o navio de Teseu?