Ezequiel 10 descreve o momento em que a glória de Deus começa a se retirar do Templo. O profeta vê querubins, rodas cheias de olhos e o trono divino em movimento. Brasas são retiradas do centro da visão e lançadas sobre Jerusalém. O ponto não é a destruição em si, mas o deslocamento da presença. Antes da queda, há o abandono.
O contexto é o período entre as deportações babilônicas, quando Jerusalém ainda existe fisicamente e muitos acreditam que o Templo garante proteção automática. Ezequiel fala do exílio, enquanto falsos profetas em Jerusalém anunciam paz. A visão confronta essa teologia: a cidade ainda está de pé, mas espiritualmente já foi deixada. A ruína política apenas seguirá a ruptura espiritual.
Literariamente, o capítulo retoma Ezequiel 1 e o aprofunda. A repetição de imagens não é excesso, é insistência. Tudo se move com ordem, precisão e consciência. Não há pressa, nem caos. A narrativa acompanha lentamente o movimento da glória, criando tensão e gravidade. O silêncio humano no texto reforça a ideia de que a história segue sem precisar de seus antigos protagonistas.
Exegéticamente, o eixo do capítulo é claro: Deus não está preso ao Templo. Ele o habita enquanto há fidelidade. Quando a aliança é traída e o mal se torna norma, a presença se move. O juízo começa quando Deus se retira, não quando Babilônia chega. O fogo vem do trono, não do inimigo. A história executa uma decisão já tomada no plano teológico.
A lição é desconfortável e atual. O juízo mais perigoso não é o que dói, é o que passa despercebido. Não é o pecado cometido, é o normalizado. Há estruturas que seguem funcionando, discursos corretos, rotinas espirituais intactas, mas sem presença. Ezequiel 10 nos obriga a perguntar: o que ainda está de pé na nossa vida, mas já foi esvaziado por dentro? Enquanto essa pergunta incomoda, ainda há tempo.