Começo meu dia com o Salmo 136. Um salmo que percorre os grandes atos de Deus; da criação dos céus à libertação de Israel, passando por vitórias sobre reis e a entrega da terra prometida.
Cada versículo repete uma mesma verdade, como um refrão cerimonial: “porque a sua misericórdia dura para sempre.”
Não é apenas repetição. É ritmo. É convicção.
É a fé que se renova a cada lembrança.
O salmo começa com o mundo criado. Céus, sol, lua, estrelas.
Deus é celebrado como Senhor da ordem e da beleza.
Antes mesmo de agir na história humana, já se revela como sábio e generoso.
A criação, tantas vezes ignorada na espiritualidade moderna, aqui se torna altar de louvor.
Depois, o salmo mergulha na história de Israel.
As pragas no Egito. O mar aberto. O deserto. As guerras.
A fé, aqui, não é abstrata. É concreta.
Deus intervém. Age no tempo. Sustenta seu povo em meio à luta.
Fé não é fuga. É engajamento com a realidade, ancorado na fidelidade divina.
Alegoricamente, o salmo também descreve a jornada do crente.
Da escravidão do pecado à liberdade da fé.
Cada etapa é atravessada pela misericórdia.
Não só na biografia individual, mas na identidade coletiva.
Somos chamados a lembrar juntos. Fé é memória partilhada.
No fim, o salmo se volta ao íntimo.
“Ele se lembrou de nós em nosso abatimento.”
O Deus que criou os céus também conhece a nossa dor.
Alimenta toda carne.
Livra dos inimigos.
A majestade que sustenta o universo se curva com compaixão.
O Salmo 136 me lembra que a misericórdia de Deus não é conceito.
É presença contínua. Atravessa a criação, a história, a comunidade e a alma.
E não se rompe.
Porque a sua misericórdia dura para sempre.