17 de setembro de 2026 · 2 min de leitura

đŸŽ” Ex-amor

Ontem deixei um pobre coitado com “VocĂȘ Abusou” na cabeça. Hoje resolvi escolher outra mĂșsica para ele: “Ex-Amor”.

đŸŽ” “Ex-amor, gostaria que tu soubesses
”

Ele gostaria.

Gostaria que ela soubesse o quanto sofreu ao ter que se afastar. NĂŁo porque esperasse alguma coisa dela. JĂĄ nĂŁo esperava.

Esperar seria perpetuar o sofrimento. Seria abuso. SĂł que, dessa vez, dele com ele mesmo.

Afinal, ele esteve disponĂ­vel. E ela escolheu a distĂąncia.

Para entender o tamanho disso, Ă© preciso saber uma coisa sobre meu amigo cafona: ele era fechado. Bastante. NĂŁo entregava acesso com facilidade.

Mas entregou para ela.

Entregou as chaves do castelo.

NĂŁo uma visita guiada. NĂŁo deixou apenas a porta entreaberta para poder fechĂĄ-la quando sentisse medo. Entregou as chaves.

Ela jogou fora.

E talvez seja tentador imaginar que, depois disso, ele tenha trocado a fechadura. Construído muros mais altos. Jurado nunca mais deixar alguém entrar.

NĂŁo.

Ele nĂŁo lamentava ter entregue as chaves. Naquele gesto, esteve inteiro. NĂŁo economizou afeto para sofrer menos depois. NĂŁo deixou uma cĂłpia escondida para preservar algum controle.

Esteve inteiro.

E continuava inteiro.

Só que agora havia uma porta trancada e ninguém sabia onde estavam as chaves.

Talvez ela mesma as encontrasse algum dia. Mas talvez nem as reconhecesse. Talvez passasse por elas sem lembrar da porta que um dia poderiam abrir.

Tudo bem.

Ele nĂŁo iria correr atrĂĄs para dizer: “essas chaves eram tuas”. NĂŁo ficaria na janela esperando que ela voltasse. NĂŁo precisava que reconhecesse o valor das chaves, muito menos que se arrependesse de tĂȘ-las jogado fora.

Isso seria continuar entregando a ela o controle sobre alguma coisa que agora precisava pertencer apenas a ele.

đŸŽ” “O quanto que eu sofri ao ter que me afastar de ti
”

Sofreu. Passado. NĂŁo significava que continuava sofrendo.

E talvez essa fosse a parte mais difĂ­cil de entender: ele nĂŁo gostaria de ter amado menos. NĂŁo se arrependia de ter sido inteiro. Apenas aprendeu que respeitar a escolha dela exigia afastar-se e que respeitar a si mesmo exigia parar de esperar.

A porta continuava trancada, a fechadura continuava a mesma e as chaves estavam perdidas em algum lugar do lado de fora. Ele continuava inteiro do lado de dentro, sem procurar, sem esperar e, principalmente, sem trocar a fechadura.

Porque alguém pode achar as chaves.

Alguém pode achar.

Talvez amanhĂŁ seja melhor trazer outra mĂșsica Ă  cabeça.

đŸŽ” “Resposta ao Tempo
”

CançÔes de um amor cafona 2 de 2 capítulos
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