Hoje fiquei com “Você Abusou” na cabeça e lembrei de um pobre coitado que enfrentava uma sinuca de bico.
🎵 É tão cafona sofrer dor
Que eu já nem sei
Se é meninice ou cafonice o meu amor
Ele era cafona. Não se incomodava.
Quando falava da própria entrega, não esperava ouvir que era meninice. Podia assumir a cafonice. O que não queria era que fizessem pouco dela.
Era do tipo que lia o mesmo que quem amava lia. Não necessariamente porque o livro lhe interessava, mas porque aquela pessoa lhe interessava. Queria entender um pouco do que ela estava vendo, participar um pouco mais do mundo dela. Prestava atenção no que gostava, guardava detalhes, tentava estar perto até das coisas que não seriam suas se não fossem importantes para alguém importante para ele.
Mas, quando dizia que lia, causava espanto. Desencanto. Aquilo que para ele era interesse parecia excesso para quem recebia. Por ser tão entregue, tão disponível, tão apegado, provocava uma repulsa sem graça, devolvida com sinceridade cortante.
Para ele, amor era verbo. Não era palavra fácil. Barata. Na impossibilidade do gesto, o afeto ficava sem lugar para acontecer.
E não dava para entregar afagos para quem escolhia a grosseria. Para quem precisava de cuidado, mas não abria mão do esculhambo. Pior: afastava quem queria proximidade para tentar se aproximar de quem oferecia distância.
E, nesse mar de confusões, a tal amada, também de sentimentos confusos, sumia. Com uma justificativa vazia. Sumia.
Talvez porque não pudesse ficar. Talvez porque não quisesse.
Na cabeça do pobre coitado, talvez estivesse atrás de um amor mais barato. Mais simples. Que exigisse menos entrega, menos presença, menos risco.
Ainda mais cafona que meu amigo cafona.
E ele sofria. Mais ainda por uma razão incomum. Difícil de acompanhar.
Sofria porque ela sofria.
E então ela sofria ainda mais por vê-lo sofrer.
Quanto mais ela sofria, mais ele queria cuidar. Quanto mais queria cuidar, mais o sofrimento dele aparecia. E o cuidado começava a produzir justamente aquilo que pretendia aliviar.
Só que talvez ela não quisesse ser cuidada.
Amar lhe dava vontade de cuidar. Não lhe dava o direito de cuidar.
E aí o refrão ganhava outro sentido:
🎵 Você abusou. Tirou partido de mim, abusou.
Podia ser cafona. Ele continuava não se importando. O que não queria era usar o amor como desculpa para ultrapassar uma fronteira.
Porque, naquele caso, “Você abusou” deixava de ser uma acusação dele contra alguém.
Passava a ser uma acusação dele contra ele mesmo.
Era essa a sinuca de bico: se cuidava, invadia; se não cuidava, parecia indiferente. Se ficava perto, incomodava; se se afastava, abandonava. Se insistia, abusava. Se desistia, precisava continuar amando sem ter onde colocar o amor.
O pobre coitado não sabia mais onde colocar o amor que ainda sentia.
Talvez amanhã fosse melhor trazer outra música à cabeça.
🎵 “Ex-amor, gostaria que tu soubesses…”
