Dei uma olhada na PET 16.662, o relatório da Polícia Federal sobre o celular do Vorcaro. E, olha, esquece o conteúdo político. Meu objetivo aqui é falar um pouquinho sobre o método.
O sujeito escrevia as mensagens no aplicativo de notas, tirava um print e mandava como visualização única no WhatsApp. A mensagem sumia. Então, como provar que aquele conteúdo foi enviado e para quem?
O interessante é que a Polícia Federal foi muito inteligente. Ela não foi atrás da mensagem. Foi atrás dos rastros que foram deixados no sistema para produzir e enviar essas mensagens.
Ela cruzou os metadados do aplicativo de notas com os logs dos outros aplicativos, observando o tempo exato, o timestamp exato de utilização, um depois do outro.
Isso deixou claro qual era o método. E aí aparece o padrão: abre o aplicativo de notas, escreve alguma coisa, tira um print, fecha o aplicativo, abre o WhatsApp, adiciona a imagem como visualização única, envia, fecha o WhatsApp, abre novamente o aplicativo de notas e assim por diante.
Tudo em intervalos de até dois minutos.
Esse era o jeito do Vorcaro de mandar as mensagens. Então, quem recebeu uma mensagem nessa janela de tempo é o provável destinatário do conteúdo que havia sido editado nas notas.
Outro fato curioso é que, quando você tira um print da tela, o iOS pode gerar arquivos temporários relacionados à imagem, que o usuário normalmente nunca vê e que são apagados pouco tempo depois.
Mas, nesse caso, houve tempo suficiente para que a Polícia Federal conseguisse recuperar esses dados. Afinal de contas, o celular foi apreendido no momento certo.
As mensagens eram daqueles dias. Então, mesmo sem a imagem disponível no WhatsApp, havia conteúdo recuperável associado aos respectivos timestamps.
Outro fato curioso: a minuta do contrato celebrado entre o escritório da esposa do tal ministro e Vorcaro também tinha registros de uso, metadados salvos pelo próprio aplicativo, o Word. E ali era possível observar a sequência de quem havia salvado o documento.
Não é alguém que vai lá e coloca deliberadamente essas informações. O próprio sistema vai adicionando esses dados automaticamente, geralmente para um bom uso.
Dessa vez, foi um bom uso. Só não sei ao certo se Vorcaro e o tal ministro acham isso.
Mas repare: ninguém editou essas informações no contrato. Elas foram inseridas automaticamente pelo aplicativo.
Então, fica o recado.
Visualização única não significa necessariamente ausência de rastros. Prints podem deixar dados recuperáveis. Documentos que você edita carregam informações sobre sua criação e edição para onde forem.
Tudo o que você faz no celular pode deixar registros em lugares que você simplesmente não vê. E, se um dia alguém tiver acesso a esses registros, muita coisa pode ser reconstruída.
É bom tomar cuidado.
Dessa vez foi a Polícia Federal. Mas o método utilizado ficou bem documentado.
Então, será que ainda vai ter mais gente descobrindo que aquilo que parecia ter desaparecido, na verdade, deixou rastros?
