ENSAIO AVULSO
6 de setembro de 2026 · 2 min de leitura

Toda relação começa por interesse e avança por afinidade

Toda relação começa por interesse e avança por afinidade.

E calma. Interesse não é oportunismo. É apenas aquilo que inicialmente aproxima duas pessoas. Um trabalho, um projeto, um ambiente, uma necessidade, um assunto em comum. A partir daí, algumas relações avançam. Outras não.

Tiago Brunet propõe uma classificação que gosto bastante. Existem amigos estratégicos, necessários e íntimos. Os estratégicos estão ligados a algum propósito. Há algo que fazemos juntos, algo que construímos, algum interesse que nos conecta. E está tudo bem se a relação ficar aí.

Algumas relações avançam pela afinidade e tornam-se necessárias. São pessoas que queremos por perto. A conversa é boa, a convivência faz bem e já não precisamos de um projeto para justificar a proximidade. E poucas chegam à intimidade. Íntimos têm acesso ao que não está disponível para todo mundo. Conhecem nossas fragilidades, nossos medos, nossas contradições. Porque intimidade pressupõe confiança. E confiança leva tempo.

O problema é que frequentemente antecipamos esse acesso. Cobramos intimidade de quem ainda é estratégico. Cobramos permanência de relações circunstanciais. Entregamos acesso de íntimo para quem ainda não construiu confiança suficiente para estar ali. Estratégico não vira necessário automaticamente. Necessário não vira íntimo automaticamente. Cada mudança de esfera precisa ser construída.

Há ainda outra classificação útil. Pessoas podem ser contornáveis ou incontornáveis. Se uma relação faz mal e é contornável, contorne. Diminua o acesso. Aumente a distância. Nem toda relação precisa ser consertada.

Agora, algumas pessoas são incontornáveis. Família, trabalho, responsabilidades compartilhadas. Você não pode simplesmente eliminá-las da equação. Nesse caso, precisa aprender a conviver, estabelecer limites e parar de alimentar a expectativa de que elas se tornem aquilo que você gostaria que fossem.

No fim, classificar não é colocar rótulos nas pessoas. É colocar ordem nas nossas expectativas. Primeiro, entenda o lugar que aquela pessoa ocupa. Depois, entenda a distância que essa relação comporta. Ajuste a expectativa. Regule o acesso. E, quando necessário e possível, a distância.

Muita decepção não nasce de descobrir quem o outro é. Nasce da distância entre o lugar que demos a alguém e o lugar que essa pessoa consegue ocupar.

Toda relação pode começar por interesse. Algumas avançam pela afinidade. Pouquíssimas chegam à intimidade. Não apresse esse caminho.

Afinidade aproxima. Confiança autoriza acesso.

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