ENSAIO AVULSO
13 de setembro de 2026 · 9 min de leitura

Romanos: o que eu vi e o que eu não vi

Se você acompanhou o blog nas últimas semanas, você leu Romanos comigo.

Foram dezesseis manhãs, de 23 de agosto a 7 de setembro. Um capítulo por dia, um texto curto por dia, sempre com uma provocação prática no começo e uma pergunta no final. Você estava do outro lado disso, e é por isso que esse texto aqui não é um balanço. É uma conversa.

Eu reli os dezesseis de uma vez, como se fossem um texto só. E quando você faz isso, cara, aparecem duas coisas ao mesmo tempo: o que você viu e o que você não viu.

Quero discutir as duas com você. E quero saber, no final, se você leu a mesma coisa que eu.

O que eu vi

Um argumento, e não dezesseis reflexões soltas

A primeira coisa que apareceu na releitura foi um arco que eu não planejei.

Do capítulo 1 ao 4, eu fiquei o tempo todo em cima do merecimento. O impedimento que vira fundação. A inocência por comparação. A justificação que não vem do mérito. A fé de Abraão, que não é confiança na própria capacidade.

Do 5 ao 8, eu saí do merecimento e caí na capacidade. Tribulação que produz perseverança. A ideia de que não basta parar, é preciso trocar de direção. E aí o capítulo 7, que para mim é o mais honesto da carta: saber e querer não é a mesma coisa que conseguir.

Do 9 ao 11, eu fiquei em cima do entendimento. Humildade e seriedade. Critério sobre o que você escuta. Seguir em frente sem garantias.

E do 12 ao 16, coerência. Não ser vencido pelo mal. Uma vida que produz amor. Convicção que orienta a tua vida sem virar régua para a vida dos outros. Força que serve.

Isso é quase exatamente a estrutura que Paulo usou na carta. Eu cheguei lá sem procurar, e essa é a primeira coisa que eu queria discutir com você: quando um texto tem argumento de verdade, ele organiza quem está lendo, mesmo que quem está lendo não perceba.

A tese que eu estava defendendo sem saber

Se eu tivesse que resumir os dezesseis textos em uma frase só, seria esta:

A graça te liberta da lógica do merecimento, e essa liberdade só se sustenta quando vira uma disposição interna coerente, que aparece no teu comportamento.

Eu não escrevi essa frase em nenhum dos textos. Mas, se você leu todos, você leu essa frase dezesseis vezes.

Ela tem três partes. A demolição do mérito, que aparece no 2, no 3 e no 9. O diagnóstico de incapacidade, que é o par 7 e 8. E a prova no comportamento, que é o que eu repeti quase com as mesmas palavras no 12 e no 13: ser cristão não é só sobre aquilo que você declara.

Te pergunto: foi isso que chegou aí? Ou o que ficou para você foi outra coisa?

Uma segunda linha, que talvez seja a mais minha

Tem outra coisa correndo por baixo da série, menos religiosa e mais profissional. É uma teoria de decisão com informação incompleta.

Está no capítulo 1, quando eu digo que aquilo que você chama de impedimento pode estar criando as condições para outra obra. Está no 4, quando eu falo em fazer tudo o que está ao teu alcance e confiar no resto. Está no 9, com humildade e seriedade. E está no 11, quando eu digo que você precisa seguir em frente sem garantias e com entendimento limitado.

Isso é o que eu faço todo dia tocando empresa. Decidir sem ter tudo na mão. Assumir responsabilidade pela parte que é minha e aceitar que boa parte não é.

Eu não coloquei isso em Romanos. Eu encontrei isso em Romanos. Tem diferença, e vale a gente discutir essa diferença, porque ela é justamente a linha que separa ler um texto de usar um texto.

O que eu não vi

Agora a parte desconfortável. E ela é maior do que a primeira.

Ela importa mais para você do que para mim, porque foi você quem recebeu essa leitura.

Eu li a carta inteira pela lente do comportamento

Esse é o problema de fundo, e quase tudo o mais sai dele.

O meu movimento, em praticamente todos os textos, foi o mesmo: Paulo afirma uma coisa sobre Deus, e eu puxo aquilo para uma direção prática. Funciona, é a minha voz, e é o que faz o texto caber em um minuto de leitura.

Só que Romanos não é um manual de conduta. E, em pelo menos um lugar, eu virei o texto ao contrário.

No capítulo 3.

É ali que Paulo estabelece que a justificação vem pela graça e não pelo merecimento. E eu usei aquele capítulo para dizer que você deve fazer as coisas pelo valor delas, e não esperando reconhecimento.

A lição é boa. Eu continuo acreditando nela. Mas ela é uma tese sobre a qualidade da minha ação, e o argumento de Paulo ali é justamente que a qualidade da minha ação não me salva. Eu peguei o capítulo que desmonta o mérito e construí em cima dele uma ética de mérito bem feito.

Se você leu aquele texto e saiu com a impressão de que Romanos 3 é sobre fazer as coisas direito, a responsabilidade é minha, não sua.

Eu tratei o capítulo 8 de forma superficial

Não é que eu tenha deixado o capítulo 8 de fora. Eu escrevi sobre ele, e escrevi a coisa certa: a disposição interna coerente tem fonte no Espírito, e não em organizar melhor os próprios valores. Aquele parágrafo eu manteria.

O problema é a proporção.

Romanos 8 é o cume da carta, e eu tratei em um texto de um minuto, no mesmo tamanho que dei para todos os outros.

O resultado é que ficou de fora quase tudo que está ali. Que não há condenação. A adoção, o Espírito que faz você chamar Deus de Pai. O Espírito que intercede quando você nem sabe o que pedir. A criação inteira em expectativa. E o fecho do capítulo, que é sobre nada conseguir te separar do amor de Cristo.

Percebe o padrão? Tudo isso é consolo e segurança. Não é conduta. Como a minha leitura foi sobre conduta, eu peguei do capítulo 8 exatamente a parte que servia ao meu recorte e passei raspando pelo resto.

E aí sobra uma pergunta que eu queria fazer para você, e não só para mim: por que é tão mais fácil falar do que a gente deve fazer do que daquilo que a gente já recebeu?

Eu evitei o que era difícil

No capítulo 9, eu levantei o problema do determinismo e resolvi em duas linhas. Escrevi “mas não é bem esse o ponto” e segui em frente.

Foi o formato vencendo o texto.

E tem uma ironia aí que eu levei duas semanas para enxergar. No capítulo 11, eu elogiei Paulo justamente por não preencher aquilo que ele não entende com certeza inventada. Mas o meu formato, com um texto por dia e uma resolução obrigatória no final de cada um, me empurra exatamente para o contrário.

Um texto que sempre resolve é um texto que nunca te deixa desconfortável. E Romanos é uma carta desconfortável.

No capítulo 13 aconteceu parecido. Paulo fala de autoridades, de espada, de imposto. Eu resolvi isso numa oração subordinada e fui direto para o amor. Eu, que escrevo sobre empreender no Brasil e sobre carga tributária, passei longe do trecho mais explosivo da carta.

Se alguma dessas passagens te incomodou na hora e você achou que o incômodo era seu, não era. Era do texto, e eu tirei ele do caminho.

Eu separei o que era um argumento só

Os capítulos 14 e 15 não são duas lições. São um argumento só, sobre uma comunidade concreta, com cristãos de origem judaica e de origem gentia convivendo em Roma. A carta tem um objetivo prático de unidade.

Eu te entreguei os dois como ética individual. Convicção no 14, força no 15. Perdi a comunidade.

O mesmo vale para o bloco do 9 ao 11, que eu tratei como três lições separadas. Os três respondem a uma pergunta só: Deus cumpre o que prometeu?

E aqui está a conexão que eu mais lamento ter perdido. No capítulo 4, eu defini fé exatamente assim: confiar que Deus é capaz de cumprir aquilo que prometeu, mesmo quando as circunstâncias dizem o contrário. Romanos 9 a 11 é o teste mais duro possível dessa definição. A ponte estava pronta e eu não atravessei.

E eu abri um laço que não fechei

O primeiro texto da série inteira nasceu de uma tese: Paulo queria chegar a Roma, não conseguia, e escreveu para Roma.

O capítulo 15 tem o plano completo, com a coleta para Jerusalém, a passagem por Roma e o projeto da Espanha. O capítulo 16 mostra a carta chegando pela mão de Febe, com Priscila e Áquila, com dezenas de nomes, muitos deles de mulheres.

Romanos também é uma carta de articulação de rede. É gente real, com nome, sustentando uma missão.

Eu fechei a série com uma frase do versículo 19, sobre ser sábio para o bem, e fui embora. Deixei de fora justamente o material que mais conversa com tudo o que eu escrevo sobre times e organizações.

Comecei a série com um homem impedido de ir. E não te contei o final.

O que deveria ser feito

Aqui eu não vou anunciar plano nenhum. A própria série me mostrou o tamanho da distância entre querer e conseguir, e seria meio ridículo terminar um texto sobre o capítulo 7 com uma lista de promessas.

Mas dá para discutir o que seria certo.

O capítulo 8 deveria ser retomado com o espaço que ele pede, e não com o espaço que o meu formato tinha disponível. Um texto de um minuto para o cume de uma carta é uma escolha de formato, não uma leitura.

Os capítulos que eu evitei deveriam ser encarados sem a obrigação de resolver no final. Um texto pode terminar em desconforto. Talvez devesse, mais vezes.

E o laço do primeiro texto deveria ser fechado, com o plano da Espanha e a lista de nomes do capítulo 16, porque uma história que começa com um impedimento merece ter o desfecho contado.

Repara que nada disso é sobre entender melhor a carta. É sobre um formato que me serviu por dezesseis dias e que, em alguns momentos, serviu melhor a mim do que a você.

Então eu te devolvo a pergunta, e eu quero mesmo a resposta: o que você leu na série que eu não escrevi aqui? E qual capítulo você acha que merecia ter sido tratado com mais tempo?

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