ENSAIO AVULSO
29 de maio de 2025 · 2 min de leitura

Quinta-feira, 29, pouco depois das seis

Hoje foi dia de Salmo 86. Um dos poucos salmos atribuídos a Davi no “terceiro livro” do Saltério (Salmos 73–89). Uma súplica por misericórdia, proteção e perdão.

Não nasce da ilusão de que tudo pode ser resolvido com esforço.
Nasce do reconhecimento honesto da falha — e do limite.

É uma oração crua. De quem não finge autossuficiência. Mas também, às vezes, pode ser usada como desculpa.

Misericórdia é perdão pra quem não merece.
Graça é presente pra quem não tem mérito.

Ambas são divinas. Mas deveriam ser humanas também. Expressão de quem crê — e não só discurso.

O Salmo 86 é de quem entendeu — como eu — que a dor fala mais alto que o orgulho. É o megafone de Deus num mundo surdo.

Mais que expressão, é gesto. Mais que teologia, é prática. Um modo de vida possível. E, pra mim, o menos insuportável.

Nietzsche talvez chamasse essa oração de fraqueza. Mas, pra mim, ela é sustentação. Não me interessa se é verificável. Interessa que me sustenta.

A linguagem da fé não é farsa. É grito.

E, às vezes, o crente também olha pro altar e não vê ninguém. Mas continua indo. Continua orando. Porque sabe que o silêncio de Deus não é ausência — é espera.

Não posso provar Deus a quem não crê. Minha própria noção Dele escapa daquilo que chamamos de “prova”. E o ateu, por sua vez, também não pode provar o contrário.

Crer e não crer são escolhas existenciais. Ambas envolvem fé — de naturezas diferentes. Ambas vivem o vazio. A diferença está no que fazem com ele.

A incapacidade de entender isso é o que gera ruído, conflito e arrogância. A fé que prega graça e misericórdia deveria saber praticar as duas.
Inclusive com quem pensa diferente.
Especialmente com quem pensa diferente.

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