Fiz uma postagem com uma opinião sobre a decisão de um político. Não vou dizer que a minha opinião era boa, mas ela era polêmica.
Resultado: um monte de gente começou a dizer que eu tava errado. Mas repara: o problema era eu. Quase ninguém discutiu o argumento.
E a tal decisão? Bom, isso ficou pra depois.
Mais uma vez, Schopenhauer explica. Em A arte de ter razão, ele descreve 38 estratagemas usados para vencer discussões. Olha alguns deles na prática.
“Mas quando o outro fez, você não reclamou.”
Estratagema 16: procurar uma contradição entre o que alguém diz e o que faz. E olha só: cobrar coerência pode ser justo. Mas demonstrar que eu sou incoerente não invalida o meu argumento.
“E os outros escândalos? E as ajudas às empresas? E os supersalários?”
Estratagema 29: mudar de assunto. Você começa discutindo uma medida e termina tendo que explicar por que não falou sobre todos os problemas do país.
Esse agora é bom.
“Elemar, volta pra tecnologia e para de falar bosta.”
Estratagema 32: colocar o argumento numa categoria que o público rejeita. O rótulo chega antes da análise. E, de repente, eu já não estou mais defendendo o argumento. Estou defendendo a minha identidade.
Teve também quem dissesse que, se eu não criticava o outro lado, então meu problema era com os pobres ou com determinado espectro político.
Estratagema 13: reduzir artificialmente as possibilidades a duas alternativas, como se fossem as únicas. Ou você pensa como eu, ou é alguma coisa moralmente condenável.
E, claro, teve bastante estratagema 38: ataque pessoal. Aqui, Schopenhauer é especialmente ácido.
Me chamaram de palhaço, burguês, privilegiado sem noção, preso a uma bolha… e daí pra cima.
Mas tem uma armadilha aqui pra mim também. Nem tudo que apareceu nos comentários foi estratagema.
Teve gente que atacou o meu argumento de verdade. E, em alguns pontos, eu concordei.
Dois erros não fazem um acerto. Uma contestação ruim não transforma o meu argumento num argumento bom.
E é preciso humildade pra reconhecer que o outro pode ter razão, mesmo argumentando mal.
Esse talvez seja o ponto mais interessante de tudo isso. Em ambientes polarizados, o debate esquenta rápido. E a dialética erística descrita por Schopenhauer mostra justamente como, muitas vezes, ter razão deixa de ser o objetivo. O objetivo passa a ser parecer ter razão.
E, quando isso acontece, o argumento perde espaço. A pessoa vira o alvo.
Ah, o ego. Inclusive o meu.
Eu sou uma boa pessoa. Mas o meu ego é insuportável.
E talvez reconhecer isso seja um bom começo.
Lê Schopenhauer.
