ENSAIO AVULSO
18 de setembro de 2026 · 2 min de leitura

Quem fala o que quer, Ouve o que não quer

Fiz uma postagem com uma opinião sobre a decisão de um político. Não vou dizer que a minha opinião era boa, mas ela era polêmica.

Resultado: um monte de gente começou a dizer que eu tava errado. Mas repara: o problema era eu. Quase ninguém discutiu o argumento.

E a tal decisão? Bom, isso ficou pra depois.

Mais uma vez, Schopenhauer explica. Em A arte de ter razão, ele descreve 38 estratagemas usados para vencer discussões. Olha alguns deles na prática.

“Mas quando o outro fez, você não reclamou.”

Estratagema 16: procurar uma contradição entre o que alguém diz e o que faz. E olha só: cobrar coerência pode ser justo. Mas demonstrar que eu sou incoerente não invalida o meu argumento.

“E os outros escândalos? E as ajudas às empresas? E os supersalários?”

Estratagema 29: mudar de assunto. Você começa discutindo uma medida e termina tendo que explicar por que não falou sobre todos os problemas do país.

Esse agora é bom.

“Elemar, volta pra tecnologia e para de falar bosta.”

Estratagema 32: colocar o argumento numa categoria que o público rejeita. O rótulo chega antes da análise. E, de repente, eu já não estou mais defendendo o argumento. Estou defendendo a minha identidade.

Teve também quem dissesse que, se eu não criticava o outro lado, então meu problema era com os pobres ou com determinado espectro político.

Estratagema 13: reduzir artificialmente as possibilidades a duas alternativas, como se fossem as únicas. Ou você pensa como eu, ou é alguma coisa moralmente condenável.

E, claro, teve bastante estratagema 38: ataque pessoal. Aqui, Schopenhauer é especialmente ácido.

Me chamaram de palhaço, burguês, privilegiado sem noção, preso a uma bolha… e daí pra cima.

Mas tem uma armadilha aqui pra mim também. Nem tudo que apareceu nos comentários foi estratagema.

Teve gente que atacou o meu argumento de verdade. E, em alguns pontos, eu concordei.

Dois erros não fazem um acerto. Uma contestação ruim não transforma o meu argumento num argumento bom.

E é preciso humildade pra reconhecer que o outro pode ter razão, mesmo argumentando mal.

Esse talvez seja o ponto mais interessante de tudo isso. Em ambientes polarizados, o debate esquenta rápido. E a dialética erística descrita por Schopenhauer mostra justamente como, muitas vezes, ter razão deixa de ser o objetivo. O objetivo passa a ser parecer ter razão.

E, quando isso acontece, o argumento perde espaço. A pessoa vira o alvo.

Ah, o ego. Inclusive o meu.

Eu sou uma boa pessoa. Mas o meu ego é insuportável.

E talvez reconhecer isso seja um bom começo.

Lê Schopenhauer.

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