O trabalho do profissional Júnior, em muitos ambientes, já pode ser substituído por inteligência artificial. Mas uma questão permanece: sem as cicatrizes do “trabalho de Júnior”, como desenvolvemos a senioridade?
Nos escritórios de advocacia, era comum que os juniores lessem processos e contratos, oferecendo sínteses aos profissionais mais experientes. Essa prática ensinava a interpretar — uma habilidade essencial para, mais tarde, saber julgar com profundidade. Mas será que isso ainda é verdade?
Desenvolvedores de software também precisavam passar pelas dificuldades de escrever código para, então, valorizar o bom design. Certo?
Pois é. Talvez isso não seja mais uma necessidade.
A humanidade sempre buscou deixar para trás o trabalho mais braçal, priorizando o esforço intelectual.
No passado, nos primórdios da tecnologia da informação, existia a figura do digitador — alguém responsável por alimentar os sistemas. Com o tempo, quem executava o trabalho passou a ser também quem digitava. Agora, com sensores e automação, boa parte da digitação nem sequer é mais necessária.
Outro ponto importante: os algoritmos sempre foram concebidos de forma matemática, depois associados a problemas específicos, e por fim traduzidos em código. Na prática, é apenas essa última etapa que a IA realiza hoje e, mesmo assim, de forma parcial. A criatividade continua sendo uma prerrogativa humana. Estamos apenas delegando à máquina o que antes fazíamos por falta de uma opção melhor.
Somos humanos e uma das nossas maiores capacidades é criar ferramentas que tornam a vida mais fácil.
Não se trata de abandonar o aprendizado que vem com o trabalho júnior, mas de repensar o papel do Júnior. Isso é progresso.
ENSAIO AVULSO
10 de junho de 2025 ·
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