25/05/2026

Segunda-feira. Duas da manhã. Mateus 27.

O capítulo 27 de Mateus é um dos mais densos do evangelho. Não apenas pelos acontecimentos, mas pela quantidade de símbolos, ironias e conexões com o Antigo Testamento. É praticamente um capítulo inteiro construído em camadas.

Uma das primeiras curiosidades é o destino de Judas. Só Mateus registra o remorso dele devolvendo as trinta moedas de prata aos sacerdotes. O valor não era aleatório. As “trinta moedas” aparecem em Zacarias como preço de um escravo ferido ou desprezado. Ou seja: Cristo é avaliado pelo valor de um servo descartável. E existe uma ironia pesada aqui: os líderes religiosos recusam colocar o dinheiro no tesouro do templo porque era “preço de sangue”, mas não tiveram problema em usar o dinheiro para condenar um inocente. A preocupação moral aparece só depois do pecado.

O “Campo do Oleiro” também carrega simbolismo. Mateus conecta isso às profecias, especialmente Jeremias e Zacarias. O oleiro, no imaginário judaico, representa Deus moldando vasos. Mas aqui o campo vira lugar de sepultamento de estrangeiros. O cenário inteiro transmite rejeição, descarte e morte.

Outro detalhe importante: Pilatos percebe que Jesus era inocente. Mateus deixa isso explícito. A esposa de Pilatos ainda manda avisar para que ele não se envolvesse “com esse justo” por causa de um sonho perturbador. Sonhos, no evangelho de Mateus, aparecem várias vezes como mecanismo de aviso divino. José recebe sonhos. Os magos recebem sonhos. Agora até uma mulher gentia percebe algo que os líderes religiosos não conseguem enxergar.

Existe também a famosa cena de Pilatos lavando as mãos. Aquilo não era costume romano. Era muito mais próximo de um símbolo judaico de inocência diante de sangue derramado injustamente. Mateus provavelmente destaca isso para mostrar a inversão absurda: o governador pagão tenta simbolicamente se desvincular da culpa enquanto os líderes religiosos conduzem a condenação.

Barrabás é outro ponto fortíssimo. O nome “Bar-Abbas” significa literalmente “filho do pai”. Alguns manuscritos antigos chamam ele de “Jesus Barrabás”. O povo então escolhe entre dois “Jesuses”: um revolucionário violento e outro rei sem violência. A escolha não é só política. É espiritual e simbólica. O povo prefere o messias alinhado à força e ruptura imediata.

A zombaria dos soldados também é carregada de ironia involuntária. Eles colocam manto, coroa e cetro improvisado para ridicularizar Cristo como “rei”. O problema é que, do ponto de vista do próprio evangelho, eles estão descrevendo exatamente quem Ele é. Mateus usa muito esse recurso: pessoas dizendo verdades profundas sem perceber.

Quando Cristo é crucificado, Mateus menciona trevas cobrindo a terra por três horas. Isso ecoa linguagem profética de juízo divino no Antigo Testamento. Não é tratado apenas como fenômeno natural. É sinal teológico. A criação reage ao que está acontecendo.

A frase “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” também costuma ser mal compreendida. Jesus está citando o Salmo 22. E esse salmo começa em sofrimento extremo, mas termina em vitória e vindicação. Os ouvintes judeus conheciam o salmo inteiro. Não era apenas um grito de dor. Era uma referência carregada de significado messiânico.

Mateus ainda registra acontecimentos que nenhum outro evangelho descreve daquele jeito: o véu do templo rasgando, terremoto, rochas se partindo e até santos ressuscitando após a morte de Cristo. O véu rasgado simboliza acesso. A separação entre Deus e homens é rompida. O lugar mais restrito do templo deixa de ser inacessível.

E talvez uma das ironias mais fortes do capítulo esteja no final. Os líderes religiosos lembram que Jesus falou sobre ressuscitar ao terceiro dia. Os discípulos, naquele momento, estão perdidos e escondidos. Quem pede guarda para vigiar o túmulo são justamente os inimigos de Cristo. Como se eles levassem mais a sério as palavras dEle do que os próprios seguidores.

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