Marcos 9 começa no alto de uma montanha e termina falando de serviço, renúncia e fidelidade. Não é por acaso. Os discípulos veem a glória de Cristo na Transfiguração. Moisés e Elias aparecem. A voz do Pai confirma: “Este é meu Filho amado; ouçam-no”. A identidade de Jesus é revelada sem ambiguidades. O problema nunca foi quem Jesus era. O problema era entender que tipo de Messias ele havia vindo ser.
Ao descer da montanha, a realidade volta a aparecer. Há um menino sofrendo, um pai desesperado e discípulos incapazes de resolver a situação. É nesse contexto que surge uma das orações mais sinceras das Escrituras: “Eu creio; ajuda-me na minha falta de fé”. Enquanto os discípulos ainda tentam compreender os mistérios do Reino, aquele homem simplesmente reconhece sua necessidade. A fé que Jesus procura não é a da autossuficiência. É a da dependência.
O contraste fica ainda mais forte quando Jesus anuncia sua morte pela segunda vez. Ele fala de entrega. Os discípulos discutem quem é o maior. Ele fala de cruz. Eles pensam em posição. É como se Marcos quisesse mostrar que é possível estar muito perto de Jesus e ainda enxergar o Reino pelos critérios do mundo. Por isso uma criança é colocada no centro da roda. No Reino de Deus, grandeza não se mede por prestígio, mas por humildade e disposição para servir.
Essa mesma lição aparece quando João tenta impedir um homem de expulsar demônios em nome de Jesus porque ele não fazia parte do grupo. A resposta de Cristo desmonta qualquer espírito de exclusividade: “Quem não é contra nós é por nós”. O Reino é maior que os nossos círculos, nossas instituições e nossas preferências. Os discípulos queriam controlar quem podia participar. Jesus os ensina a reconhecer aliados onde eles enxergavam concorrentes.
No fim, Marcos 9 nos confronta com uma pergunta simples e desconfortável: estamos ouvindo Jesus ou apenas admirando Jesus? Os discípulos ficaram maravilhados com a glória da montanha, mas tiveram dificuldade de aceitar o caminho da cruz. Nós corremos o mesmo risco. Gostamos da vitória, do poder e das promessas. Mas Cristo insiste em nos conduzir pela humildade, pelo serviço e pela entrega. A voz do Pai continua ecoando sobre todo o capítulo: “Este é meu Filho amado; ouçam-no”. Principalmente quando ele fala coisas que não gostaríamos de ouvir.