Marcos 7 é um capítulo sobre fronteiras. Mas não as fronteiras que os homens constroem entre povos, tradições e costumes. Jesus passa o capítulo inteiro derrubando essas barreiras uma a uma. Primeiro, confronta os fariseus por confundirem tradição com mandamento. Eles estavam preocupados com mãos lavadas, utensílios purificados e rituais cuidadosamente observados. Jesus, porém, aponta para um problema mais profundo: a verdadeira impureza não entra pela boca nem vem do contato com o mundo exterior. Ela nasce no coração humano. O problema não está fora de nós. Está dentro.
A partir daí, Marcos constrói uma sequência que parece dispersa, mas que possui uma unidade impressionante. Logo após declarar que a impureza não está relacionada a regras externas, Jesus vai ao encontro de uma mulher siro-fenícia. Ela é estrangeira, gentia e, sob muitos critérios religiosos da época, alguém que estaria fora dos limites da aliança. Ainda assim, é justamente nela que encontramos uma fé admirável. O diálogo parece duro em um primeiro momento, mas conduz a uma revelação: a graça de Deus não está confinada às fronteiras étnicas de Israel. A fé daquela mulher abre espaço para a manifestação do Reino.
Em seguida, Marcos apresenta a cura do surdo que tinha dificuldade para falar. Diferentemente do exorcismo realizado à distância na filha da mulher siro-fenícia, aqui Jesus toca, usa saliva, olha para o céu e pronuncia a palavra “Efatá”, que significa “abre-te”. O contraste é importante. Jesus não está preso a fórmulas. Ele cura à distância quando deseja e toca quando considera necessário. O poder não está no gesto. O gesto existe em função da pessoa. Cristo adapta a forma da cura à necessidade humana, e não o contrário.
Há também um simbolismo profundo nessa cura. O homem não consegue ouvir nem falar adequadamente. Ao restaurar sua audição e sua fala, Jesus não está apenas resolvendo uma limitação física. Marcos sugere uma restauração mais ampla. Ao longo do Evangelho, a dificuldade de ouvir é frequentemente associada à incapacidade de compreender a mensagem de Deus. O homem que passa a ouvir e falar torna-se uma imagem do que Jesus deseja fazer com todos: abrir os ouvidos para a verdade e libertar a boca para testemunhá-la.
Por trás de todos esses episódios existe um único movimento teológico. Jesus redefine quem pode se aproximar de Deus. Não são os que possuem os rituais corretos. Não são os que pertencem ao povo certo. Não são os que aparentam pureza diante dos outros. São aqueles cujo coração está aberto para receber a ação divina. Marcos 7 começa com mãos que parecem impuras e termina com ouvidos que finalmente se abrem. Entre um ponto e outro, Jesus desmonta as falsas barreiras da religião e mostra que a verdadeira transformação acontece de dentro para fora. É o coração que precisa ser purificado. Todo o resto vem depois.