29/05/2026

Sexta-feira. Seis da manhã. Marcos 3.

Marcos 3 mostra um momento de virada no ministério de Jesus. A popularidade cresce rapidamente. Multidões chegam de regiões distantes, a ponto de Ele precisar manter um barco por perto para não ser esmagado pelas pessoas que buscavam cura. Ao mesmo tempo, cresce também a oposição. Depois de curar um homem com a mão ressequida em pleno sábado, Jesus vê fariseus e herodianos, grupos que tinham poucas razões para caminhar juntos, se unirem em um objetivo comum: eliminá-lo. Parece existir uma lição aqui. Nem toda resistência nasce de divergências entre adversários. Muitas vezes, interesses diferentes se alinham quando algo ameaça estruturas estabelecidas.

É também nesse capítulo que Jesus escolhe formalmente os Doze. Outros evangelhos mostram que alguns deles já o acompanhavam antes, mas aqui Marcos destaca a constituição oficial daquele grupo. E faz isso de forma interessante: Jesus sobe ao monte e chama aqueles que deseja. Para um leitor judeu, a imagem lembra imediatamente Moisés no Sinai. O número doze também não é acidental. Remete às doze tribos de Israel. Marcos parece sugerir que Jesus não estava apenas formando uma equipe de discípulos. Estava inaugurando algo novo, formando o núcleo de um novo povo.

Outro detalhe chama atenção. Enquanto multidões o seguem, líderes religiosos o rejeitam e até seus familiares acreditam que Ele perdeu o juízo, os demônios sabem exatamente quem Ele é. Existe uma ironia poderosa nisso. Aqueles que deveriam reconhecê-lo primeiro não conseguem enxergá-lo, enquanto seus inimigos espirituais não têm dúvidas sobre sua identidade. O problema nunca foi falta de evidências. O problema era a disposição de aceitar aquilo que as evidências apontavam.

Essa tensão aparece de forma ainda mais forte quando os escribas atribuem ao poder de Satanás aquilo que estavam vendo Jesus realizar. É nesse contexto que surge a advertência sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo. O ponto central não parece ser um pecado cometido por acidente, mas a rejeição deliberada da verdade. É a situação de quem vê a luz e insiste em chamá-la de escuridão. Quem faz isso não fica sem perdão porque Deus se recusa a perdoar. Fica sem perdão porque rejeita justamente a ação que poderia conduzi-lo ao arrependimento.

O capítulo termina com uma das declarações mais radicais de Jesus. Quando sua mãe e seus irmãos o procuram, Ele responde que sua verdadeira família é formada por aqueles que fazem a vontade de Deus. Não é uma rejeição da família biológica. É uma redefinição de pertencimento. No fim das contas, Marcos 3 apresenta três grupos diante de Cristo: os que o rejeitam, os que não o compreendem e os que decidem segui-lo. A pergunta que permanece para o leitor é simples e desconfortável ao mesmo tempo: em qual desses grupos eu me encontro?

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