ENSAIO AVULSO
10 de setembro de 2026 · 4 min de leitura

IA nas eleições: proibir resolve?

Há algum tempo, participei de uma conversa na TMC sobre o uso da inteligência artificial nas eleições. As perguntas dos entrevistadores trouxeram questões que merecem uma discussão cuidadosa: como fiscalizar o uso da tecnologia? Avisar que um conteúdo foi produzido com IA garante transparência? As plataformas conseguem impedir que informações falsas se espalhem?

Publiquei agora os principais trechos dessa participação no YouTube. Ao revisitar a conversa, volto a uma preocupação: precisamos avaliar as regras também pela nossa capacidade de colocá-las em prática.

O que acontece depois da proibição?

Durante a entrevista, fui questionado sobre a eficácia de restringir conteúdos produzidos com IA nas horas que antecedem uma eleição.

Minha avaliação foi que uma restrição concentrada nesse período teria alcance limitado. A formação de opinião acontece ao longo de um processo muito mais extenso. Mensagens circulam, percepções se consolidam e narrativas ganham força antes da reta final.

Isso reforça a importância de discutir quais usos são aceitáveis, quais condutas precisam ser combatidas e como responsabilizar quem tenta enganar as pessoas.

Uma regra precisa encontrar condições de aplicação. Quem identifica a infração? Com quais evidências? Em quanto tempo? Essas perguntas fazem parte do desenho de uma regulação eficaz.

Como fiscalizar aquilo que é difícil identificar?

Esse foi um dos pontos centrais da conversa.

Determinar se uma imagem, um vídeo ou um áudio foi produzido com inteligência artificial pode ser difícil. Na entrevista, mencionei os esforços de fornecedores para oferecer mecanismos de rastreamento, mas também a diversidade de ferramentas disponíveis.

Não podemos pressupor que todo conteúdo será produzido em ambientes com os mesmos controles ou possibilidades de identificação.

Por isso, a capacidade de fiscalização precisa acompanhar a definição das regras. Uma proibição, sozinha, não responde à pergunta que aparece logo depois: como verificar se ela foi descumprida?

Também considero importante reconhecer que a qualidade da tecnologia tem aplicações positivas. O fato de uma ferramenta produzir resultados convincentes não torna todos os seus usos problemáticos. Precisamos examinar a finalidade, o contexto e os efeitos de cada uso.

O aviso sobre IA ajuda. O que acontece quando ele é omitido?

Defendo a transparência sobre o uso de inteligência artificial na produção de conteúdo. Informar esse uso é uma prática ética que ajuda o público a compreender o que está consumindo.

Mas há uma dificuldade evidente: quem pretende enganar pode decidir esconder justamente essa informação.

O aviso é útil quando está presente. Sua ausência, porém, não comprova que o conteúdo seja autêntico.

Essa distinção muda a maneira como precisamos consumir informação. Reconhecer uma voz ou ver alguém aparentemente dizendo alguma coisa não deveria encerrar a verificação.

De onde veio o material? Existe uma publicação original? É possível confirmar o contexto? Há outras fontes que sustentem aquela informação?

A familiaridade com um rosto ou uma voz pode gerar confiança. Precisamos aprender a combinar essa impressão com a verificação da origem.

Remover uma publicação é suficiente para conter sua circulação?

Os entrevistadores também perguntaram sobre a capacidade das plataformas de agir rapidamente.

Naquele momento, manifestei ceticismo quanto à capacidade de atender plenamente a essa expectativa. O desafio inclui as cópias, as republicações e as diferentes formas de fazer o mesmo material continuar circulando.

Há uma diferença relevante entre remover uma publicação e conter a disseminação de um conteúdo.

Por isso, a discussão sobre responsabilidade precisa considerar tanto a velocidade da resposta quanto a capacidade de identificar e lidar com a replicação. Expectativas de remoção precisam vir acompanhadas de uma compreensão realista do problema operacional.

Precisamos combater a desinformação em todas as suas formas

Esse foi o argumento que procurei deixar mais claro na entrevista: uma informação falsa continua sendo um problema quando é produzida sem inteligência artificial.

Concentrar toda a atenção na ferramenta pode limitar nossa compreensão das práticas que queremos combater.

Defendo regras de uso claras, transparência, mecanismos de fiscalização e responsabilização. Também considero necessário desenvolver nossa capacidade de verificar aquilo que recebemos e compartilhamos.

A inteligência artificial merece ser discutida com seriedade, incluindo seus riscos e suas possibilidades. Demonizá-la oferece poucas respostas para questões que envolvem intenção, confiança e responsabilidade.

A pergunta que deixo é: como transformar regras sobre o uso de IA em medidas que efetivamente reduzam a manipulação e a desinformação?

▶️ Assista à minha participação na TMC

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