A gente se acostuma rápido com aquilo que um dia pediu muito.
O que era resposta vira rotina. O que era bênção vira normalidade. O extraordinário de ontem passa a ser tratado como obrigação hoje.
Por isso, antes de pedir novamente, vale lembrar do tanto que já recebemos.
E não apenas das coisas que recebemos. Das pessoas também.
Quem nos aconselhou. Quem abriu uma porta. Quem acreditou quando ainda havia pouco para acreditar. Quem esteve presente quando quase ninguém estava. Quem tirou pedras do caminho para que pudéssemos continuar andando. Quem fez por nós aquilo que ninguém mais faria.
É fácil olhar para onde chegamos e imaginar que chegamos sozinhos.
Não chegamos.
Agradecer é um ato. Ser grato é uma postura. É construir memoriais no coração para que o tempo não apague a consciência do bem que recebemos.
Memória alimenta gratidão. E gratidão também nos ajuda a olhar para a vida de outra maneira.
Talvez uma das formas mais silenciosas de ingratidão seja simplesmente esquecer.
Esquecer o quanto desejamos aquilo que hoje consideramos normal. Esquecer quem nos ajudou. Esquecer as portas que alguém abriu. Esquecer as pedras que alguém removeu antes de chegarmos.
Quem preserva a memória preserva a gratidão. E quem se lembra do caminho dificilmente acredita que chegou sozinho.
