Flávio Dino, lembra dele? Denunciou que mesários poderiam estar votando no lugar de eleitores ausentes. A ideia era simples. Perto do encerramento, o mesário saberia quem não compareceu e poderia votar em nome dessa pessoa. Isso foi há muitos anos, quando a biometria não tinha a abrangência que ela tem hoje. A biometria dificulta um bocado esse tipo de fraude, mas, ó, tem cenários curiosos e exceção.
Eventualmente uma pessoa não tem a biometria registrada ou então ela não é reconhecida. E nesses casos existe um procedimento alternativo que o mesário pode adotar. E é justamente por isso que a gente precisa dar uma olhada nos números de 2026. Segundo uma análise independente do CA, 15,62 milhões de pessoas votaram sem reconhecimento biométrico no primeiro turno.
No segundo foram 16,26 milhões, quase 642.000 pessoas a mais, sem reconhecimento biométrico no segundo turno. Parece até uma explosão, né? Mas a gente precisa considerar que a abstenção caiu e mais gente apareceu para votar. Então, proporcionalmente passamos de 12,47%, os votos sem biometria para 12,68. Apenas 0,21 ponto percentual. Por que que isso importa?
Porque existe uma acusação circulando de que mesários teriam votado de forma favorável ao Lula no segundo turno e isso ajudaria a vencer as eleições. Os números não mostram uma explosão proporcional de votos sem biometria no segundo turno. Votar sem reconhecimento biométrico é previsto nas regras eleitorais. Mas como que essa fraude poderia acontecer hoje?
Um mesar teria que autorizar indevidamente o voto de uma pessoa ausente, contornando os mecanismos de verificação, e teria que escapar da atenção de outros mesários e de fiscais partidários quando esses estivessem presentes. Além disso, todas as liberações excepcionais deixam rastros possíveis de investigar mais tarde. A fraude precisa passar por diferentes barreiras e, ó, contar com a conivência de bastante gente é impossível. Não.
Em 2016, em Pescaria Brava, Santa Catarina, um mesário se aproveitou de muito que estava sozinho no final do dia e registrou cinco votos fraudulentos, um deles, inclusive, no lugar de uma pessoa falecida. Ele falsificou assinaturas, deixou evidências e acabou condenado. Bem feito.
Portanto, irregularidades existem e precisam ser identificadas, mas os números nacionais não demonstram uma fraude organizada em 2026, mas também não descartam casos localizados. E eu reconheço a identificação de um eleitor, principalmente quando a biometria falha, é um ponto sensível. Mas qual seria a solução?
Impedir alguém de votar, porque não tem cadastro biométrico, porque a digital falhou, estaremos aumentando a segurança ou tirando o direito legítimo ao voto? Tradeoff difícil, viu? Nem o voto impresso, nem o voto manual resolvem por si só esse problema. Registrar corretamente o voto não indica que a pessoa certa votou. E para esse problema eu não tenho solução simples.
